Onde deus é homem...

Onde deus é homem...

Maria López Vigil


Recordo-me perfeitamente onde estava há uns dez anos, quando abri um boletim de notícias do Concílio Mundial de Igrejas, que recebia periodicamente, e li a manchete: “Onde Deus é homem, os homens se creem deuses”.

Não apenas cai alguém de um cavalo a caminho de Damasco… Não caí da cadeira e segui no lugar de sempre, porém a manchete foi como uma revelação. Fez-me perceber algo essencial. Agarrada à ideia, iniciei um caminho que desde então não deixei de percorrer.

Sob o título vinham as palavras da ministra protestante Judith Van Osdol, em um encontro regional de mulheres, celebrado em Buenos Aires.

“As igrejas que imaginam ou representam Deus como um homem têm que encarregar-se da imagem criada como heresia. Porque onde Deus é homem, o homem é Deus...”.

Quando li as duas frases senti que estava tocando as raízes mais antigas da discriminação, do menosprezo, do desprezo, da violência contra as mulheres…

Continuei refletindo desde então, perscrutando como se teceu a antiquíssima raiz.

Se toda religião consiste em se fazer visível em palavras, em narrações, em imagens um Deus a quem ninguém jamais viu, é evidente que a religião cristã, de matriz judia, empregou orações, louvores, pinturas, cantos, esculturas e símbolos, todos masculinos, para tornar Deus “visível”. Apenas algumas referências bíblicas têm um matiz feminino. E se incorporou hoje à linguagem litúrgica chamar “Deus Pai e Mãe”. Bastará?

Partindo de nossa herança cultural, afirmamos que, mesmo que Deus não tenha sexo, desde há milhares de anos, sim, tem gênero: o gênero masculino.

Sabemos que o sexo é uma característica biológica e o gênero, uma elaboração cultural. Por isso, mesmo em Deus, estão presentes o feminino e o masculino como expressões da Vida, na cultura judeu-cristã, na cultura bíblica, na tradição cristã, católica, ortodoxa ou protestante, nos textos de quatro mil anos de escritura, na literatura do judaísmo, na de dois mil anos de cristianismo. No Islã, Deus tem gênero e seu gênero é masculino. Significa que Deus é imaginado, pensado, concebido, rezado, cantado, louvado ou repelido como um homem. Como não pensar, então, que a milenar identificação genérica, cultural, de Deus com o masculino, não tenha consequências na sociedade humana?

Por ser o gênero uma elaboração cultural, pode ser mudado. Pois tudo o que se constrói, se pode desconstruir para reconstruí-lo. Creio que disso se trata: reconstruir o rosto de Deus também feminino, tarefa que não é simples, porém, como não pensar que teria consequências importantes na ética, na espiritualidade?

Pela antropologia cultural, sabemos que, no começo Deus “nasceu” feminino na mente humana, e que a ideia de Deus nasceu vinculada ao feminino. Durante milênios, a Humanidade, assombrada diante da capacidade de a mulher gerar em seu corpo o milagre da vida, venerou a Deusa Mãe, vendo no corpo da mulher a imagem divina. Durante milênios, todos os povos da Terra pensaram em Deus como mãe.

Muitos milênios depois, a revolução agrícola trouxe acumulação de grãos, terras e animal. E trouxe a necessidade de defender com armas, os celeiros, terras e gado. Nessa etapa, e pouco a pouco, a Deusa Mãe foi sendo relegada, e deuses masculinos e guerreiros, que decretavam guerras e exigiam sacrifícios sangrentos, impuseram em todos os povos da Terra. Os deuses masculinos dominaram as culturas do Mundo Antigo e desde então se impuseram em todas as religiões que hoje conhecemos. Em Israel suplantaram a Deusa Mãe, e Javé se impôs na imaginação do povo hebreu. É a origem do que hoje chamamos “cultura religiosa patriarcal”.

Na iconografia cristã, nas imagens que vimos desde crianças, Deus é um ancião com barbas. É ainda um Rei com coroa e cetro sentado em um trono. Um Juiz inapelável, de decisões inescrutáveis. O Deus dos Exércitos. Sempre uma autoridade masculina. Os dogmas criptológicos dizem que o Pai Deus tem um Filho, Deus, que “se fez” homem, o que sugeriria que sua essência anterior ao “fazer-se” era masculina. A terceira pessoa na “família divina” é o Espírito Santo. Apesar de em hebraico a palavra espírito ser palavra feminina, a ruaj, a força vital e criadora de Deus, a que põe tudo em movimento e anima todas as coisas, e nos ensinam que o Espírito deixou Maria grávida. Isso leva a pensar que o Espírito é um princípio vital masculino.

Em expressões religiosas bem posteriores, populares e libertadoras, como as que se expressam na Missa Camponesa Nicaraguense, Deus é um homem. Cantamos como “artesão, carpinteiro, pedreiro e armador”. Nenhum ofício feminino tem esse Deus. E o “vemos” nos postos de combustível checando as calotas de um caminhão, consertando estradas, engraxando sapatos no parque, sempre em trabalho de homens. Não o vemos lavando ou cozinhando ou cosendo, muito menos dando de mamar. Um Deus pobre e popular, mas homem. Um homem. O Deus da Teologia da Libertação continuou sendo um homem.

Jesus de Nazaré foi educado na religião de seus pais. No judaísmo, Deus era imaginado e pensado sempre masculino. Jesus nos apresentou como um Pai bondoso e o chamou Abba, não o chamou Imma. No entanto, nas atitudes de Jesus há uma aproximação das mulheres, semelhante ao que teve com os homens, o que contrariava sua religião. E na proposta ética de Jesus há valores atribuídos pela cultura ao “feminino”: o cuidado, a paixão e a compaixão, a não violência, a proximidade, a empatia, a intuição, a espontaneidade…

E há ainda uma pista interessante em algumas de suas parábolas. Talvez uma intuição do homem de Nazaré? Jesus fez das mulheres protagonistas de suas comparações com Deus e com o agir de Deus. Na parábola do fermento, falou do que sucede com o Reino de Deus: tão logo apenas uma pitada de levedura fermenta toda a massa. Eram mulheres quem fazia o pão, quem dava andamento ao processo. Falou do cuidado que Deus tem com todos os seus filhos, comparando-o com um pastor que busca, sob riscos, uma de suas cem ovelhas, quando a perdeu. Imediatamente, o Mestre “feminizou” sua comparação e disse que Deus se parece com uma mulher que busca ansiosamente uma das dez moedas de seu dote quando a perdeu…

As comparações foram surpreendentes para sua audiência, educada em uma cultura religiosa, na qual Deus tinha gênero masculino e as mulheres eram discriminadas totalmente nas práticas, ritos e símbolos da religião. Ao comparar os sentimentos de alegria de Deus com os do pastor que encontra a sua ovelha e com os da mulher que encontra sua moedinha, Jesus ampliou a imagem de Deus: um Deus, o qual nunca ninguém viu, porém, ao qual homens e mulheres se revelam e se manifestam quando cuidam da vida.

A imagem masculina de Deus, tão arraigada em nossa mente, tem consequências. Não é mais óbvio deduzir que se Deus é visto como homem, os homens se verão a si mesmos como deuses? E se além disso, Deus for visto como um homem que ordena, impõe e julga, os homens, que se veem como deuses, não ordenarão, não se imporão e julgarão? Não será essa a raiz mais velha e mais oculta que justifica e legitima a iniquidade entre homens e mulheres? Não estará aqui uma explicação, soterrada, da discriminação e da violência dos homens contra as mulheres? Como essa raiz permanece tão escondida, leva tanto tempo intocada, estamos todos anestesiados, homens e mulheres, diante de suas consequências?

Toda a cultura cristã está articulada a partir da imagem de um Deus masculino, que impõe sua criação de cima e de fora. A Deusa Mãe unificava todos os seres viventes, humanos, animais e plantas, de dentro de todo o universo criado. O resultado do desequilíbrio histórico que a substituiu para impô-lo, que causou conflito entre o masculino e o feminino, transladando esse conflito à imagem de Deus, tem consequências na forma pela qual construímos o mundo e em como vivemos no mundo. Não será uma tarefa urgente indagar?

 

Maria López Vigil
Manágua, Nicarágua